segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Musculação e queima de gordura

O assunto é recorrente. Em todas as conversas que escuto acerca de "exercícios para queimar gordura" invariavelmente a abordagem recai sobre a prática de exercícios aeróbicos. Seja ele corrida, ciclismo, natação.

Há aqueles que pregam insistentemente na prática de exercícios aeróbicos de baixa intensidade para trabalhar na "faixa da queima de gordura". Outros o exercício aeróbico de alta intensidade para que o metabolismo fique acelerado por mais tempo ao término do exercício e continue com a queima de gordura, ainda que em repouso. E há várias outras colocações.

Certo é que A PRÁTICA DE EXERCÍCIOS É FUNDAMENTAL, TANTO PARA A QUEIMA DE GORDURA QUANTO PARA O BEM-ESTAR FÍSICO E MENTAL.

Mas, retornando ao assunto da queima de gordura, peço licença ao amigo Paulo Gentil para resgatar este artigo publicado originalmente no site www.gease.pro.br, que trata da queima de gordura por intermédio da prática de musculação

Boa leitura e boa malhação.

Título: Musculação e emagrecimento
Autor: Paulo Gentil
Email: http://www.gease.pro.br
Adicionado em: 02/04/2005

Como já dissemos em outra ocasião, o dogma de aeróbios e perda de gordura não passa de um equívoco. A utilidade destas atividades é extremamente limitada e dever ser complementada, ou mesmo substituída, por exercícios mais específicos e eficientes. Junto com as modalidades citadas ao final do artigo "A verdade sobre aeróbios e emagrecimento", a musculação pode ser tida como uma das melhores opções em todos os aspectos, desde prevenção de patologias, ganho de massa muscular, tratamento de enfermidades, e, claro, redução da gordura corporal.

Existem estudos a favor da musculação com mais de 30 anos de idade. No livro “Fundamentos do Treinamento de Força Muscular”, FLECK & KRAEMER (1999), cita estudos de 1970. Muitos trabalhos encontraram bons resultados com musculação há mais de duas décadas como os publicados em 1978 por GETTMAN et al, WILMORE & GRIMDITCH et al, WILMORE & GIRANDOLA et al. e GETTMAN et al , publicado em 1979.

Redução de gordura.

Em 1992, BROEDER e outros autores realizaram um trabalho de 12 semanas na Universidade do Texas onde usaram treinamento aeróbio de baixa intensidade ou musculação. O grupo que treinou endurance obteve perda de gordura, sem alterações na massa magra, já o treino com pesos induziu tanto um aumento na massa magra quanto redução na gordura corporal. Em 1997, o mesmo grupo acima (agora com a presença de Volpe) publicou um estudo com os mesmo resultados.

Outro estudo interessante foi feito por BRYNER et al (1999), no qual se compararam os efeitos do treinamento com pesos ao aeróbio juntamente com uma dieta de 800 kcal. O grupo das atividades aeróbias se exercitou 4 vezes por semana durante uma hora. O grupo da musculação só exercitava-se três vezes por semana em 10 exercícios chegando a quatro séries de 8-15 repetições. Os resultados: os grupos obtiveram ganhos similiares em VO2 máx e, apesar de ambos perderem peso, os exercícios aeróbios causaram perda de massa magra (cerca de 4 quilos!) o que causou redução no metabolismo de repouso de +/- 200 kcal. Ao contrário da inconveniência dos resultados obtidos com treinamento de endurance, a musculação preservou a massa magra e metabolismo de repouso.

GELIEBTER e outros autores também conduziram um experimento no qual se comparou o efeito do treinamento aeróbio com o da musculação nas alterações da composição corporal de indivíduos moderadamente obesos. Ao final de 8 semanas ambos os grupos obtiveram uma perda de peso de 9 quilos em média, porém somente o grupo que treinou com pesos conseguiu atenuar a perda de massa magra. (GELIEBTER et al, 1997)

Em 1999, Kraemer, e outros nomes notórios como Volek e o finlandês Keijo Hakkinen, fizeram um estudo de 12 semanas no qual a amostra foi dividida em três grupos: dieta, dieta + exercício aeróbios e dieta + treino de força. Ao final da pesquisa todos os grupos conseguiram reduzir o peso, sendo a menor perda para o grupo de exercícios aeróbios. Do peso perdido, o grupo que praticou a musculação perdeu 97% em gordura, contra 78% para exercícios aeróbios + dieta e 69% para a dieta somente, sendo que este último perdeu uma quantidade significativa de massa magra (KRAEMER et al, 1999).

Manutenção ou elevação do metabolismo.

Quando se realizam intervenções com o objetivo de reduzir o peso, um dos maiores problemas que se encontra é diminuição do metabolismo de repouso, ou seja, passa-se a utilizar menos energia, facilitando a recuperação da gordura perdida.

Como vimos no artigo sobre exercícios aeróbios (A verdade sobre aeróbios e emagrecimento), atividades intensas produzem maiores gastos calóricos e elevações na taxa metabólica de repouso por tempo e magnitude proporcionais a intensidade da atividade, a musculação pode ser orientada para ter característica intervaladas de alta intensidade e trazer os benefícios citados anteriormente. O mesmo serve ao treinamento com pesos conforme verificado por MELBY et al, (1993), GILLETTE et al (1994), HALTOM et al (1999), OSTERBERG & MELBY (2000). Neste último estudo, os autores verificaram utilização de gordura até 62% acima do “normal”, mesmo 14 horas após a musculação!

Apesar do que muita gente crê, o fato de se ter um bom condicionamento aeróbio em nada ajuda o seu metabolismo, pois o condicionamento aeróbio em si nada tem a ver com o gasto de energia no metabolismo de repouso. (BINGHAM et al, 1989; BROEDER et al, 1992, WILMORE et al, 1998). Pode-se correr na esteira a vida interia e até mesmo se tornar um maratonista que o metabolismo permanecerá igual, a menos que se ganhe massa muscular! Ressaltando, a maioria das evidências sugere que o metabolismo basal é relacionado à quantidade massa magra (BINGHAM et al, 1989; BROEDER et al, 1992; BURKE et al, 1993). Aqui reside uma inigualável vantagem do treino com sobrecargas, a capacidade de reduzir a gordura corporal e simultaneamente manter ou até mesmo aumentar a massa muscular, o que evita ganhos futuros de peso, melhora a estética e parâmetros funcionais, principalmente na força, coisas que os exercícios aeróbios não fazem (HUNTER et al 1998).

Além do ganho de massa magra há estudos mostrando alterações metabólicas interessantes como maior utilização de energia por unidade de massa magra, revelando que a elevação do metabolismo de repouso advindo do treinamento com pesos vai além do ganho de massa magra. Outro dado interessante é a queda do quociente respiratório, demonstrando maior utilização de gordura em repouso (HUNTER et al, 2000).

Esta hipótese tem sido muito discutida atualmente dada à baixa relevância que a massa muscular pode ter no metabolismo basal (os cálculos que fiz trazem algo em torno de 50 kcal por quilo de massa magra), porém, em casos extremos, os valores de massa muscular podem chegar a quantidades elevadas, ganhado significância.

Conclusões

Comprovadamente a musculação é um excelente meio de reduzir o percentual de gordura, mas os benefícios não se resumem a mera diminuição no tecido adiposo. O treinamento com pesos estimulará a síntese de proteínas musculares melhorando sua estética e as funções do aparelho locomotor. Além disso, os benefícios obtidos com o uso de exercícios resistidos serão mais duradouros devido à manutenção e até mesmo elevação do metabolismo de repouso, que parece ser relacionado com a massa muscular.

Enfim, tendo em vista os inúmeros benefícios proporcionados pelos exercícios com pesos é recomendável que se perca o medo da sala de musculação e descubra as maravilhas que lá o esperam. A monotonia ou a falta de tempo não serão problemas, pois o bom professor saberá organizar um treino que seja totalmente adequado a sua disponibilidade e personalidade, a questão chave está em se exercitar sob uma supervisão competente.

Nesse texto a referência principal foi a musculação, mas os mesmos benefícios podem ser obtidos com modalidades em grupo como a ginástica localizada (a verdadeira, montada por professores competentes, e hidroginástica (que pode ser bastante intensa, se elaborada com esta finalidade). Diversos estudos citados utilizaram treinamentos em circuito, que se aproximam muito da metodologia usada nas aulas em grupo (observação: não confunda isto com realizar 100 repetições de cada movimento ou passar de 4 a 5 minutos exercitando um grupamento muscular sem descanso, os questionáveis resultados estéticos destas metodologias em nada tem a ver com a proposta deste texto).

Além destas vantagens a musculação também poderia ser organizada de modo a se aproximar de um treino intervalado, modalidade extremamente eficiente na redução da quantidade de gordura corporal, como mostrado no texto A verdade sobre aerobios e emagrecimento

Referências Bibliográficas

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BINGHAM SA, GOLDBERG GR, COWARD WA, PRENTICE AM, CUMMINGS JH. The effect of exercise and improved physical fitness on basal metabolic rate. Br J Nutr 1989 Mar;61(2):155-73

BROEDER CE, BURRHUS KA, SVANEVIK LS, VOLPE J, WILMORE JH. Assessing body composition before and after resistance or endurance training. Med Sci Sports Exerc 1997 May;29(5):705-12

BROEDER CE, BURRHUS KA, SVANEVIK LS, WILMORE JH The effects of either high-intensity resistance or endurance training on resting metabolic rate. Am J Clin Nutr 1992 Apr;55(4):802-10

BROEDER CE, BURRHUS KA, SVANEVIK LS, WILMORE JH. The effects of aerobic fitness on resting metabolic rate. Am J Clin Nutr 1992 Apr;55(4):795-801

BRYNER RW, ULLRICH IH, SAUERS J, DONLEY D, HORNSBY G, KOLAR M, YEATER R Effects of resistance vs. aerobic training combined with an 800 calorie liquid diet on lean body mass and resting metabolic rate. J Am Coll Nutr 1999 Apr;18(2):115-21.

BURKE CM, BULLOUGH RC, MELBY CL Resting metabolic rate and postprandial thermogenesis by level of aerobic fitness in young women. Eur J Clin Nutr 1993 Aug;47(8):575-85 Erratum in: Eur J Clin Nutr 1993 Dec;47(12):895

CAMPBELL WW, CRIM MC, YOUNG VR, EVANS WJ. Increased energy requirements and changes in body composition with resistance training in older adults. Am J Clin Nutr 1994 Aug;60(2):167-75

CRIST DM, PEAKE GT, EGAN PA, WATERS DL. Body composition response to exogenous GH during training in highly conditioned adults. J Appl Physiol 1988 Aug;65(2):579-84

ELLIOT DL, GOLDBERG L, KUEHL KS Does aerobic conditioning cause a sustained increase in the metabolic rate? Am J Med Sci 1988 Oct;296(4):249-51

GELIEBTER A, MAHER MM, GERACE L, GUTIN B, HEYMSFIELD SB, HASHIM SA. Effects of strength or aerobic training on body composition, resting metabolic rate, and peak oxygen consumption in obese dieting subjects. Am J Clin Nutr 1997 Sep;66(3):557-63

GETTMAN LR, AYRES JJ, POLLOCK ML, DURSTINE JL, GRANTHAM W. Physiologic effects on adult men of circuit strength training and jogging. Arch Phys Med Rehabil 1979 Mar;60(3):115-20

GETTMAN LR, AYRES JJ, POLLOCK ML, JACKSON A. The effect of circuit weight training on strength, cardiorespiratory function, and body composition of adult men. Med Sci Sports 1978 Fall;10(3):171-6

GILLETTE CA, BULLOUGH RC, MELBY CL Postexercise energy expenditure in response to acute aerobic or resistive exercise. Int J Sport Nutr 1994 Dec;4(4):347-60

HALTOM RW, KRAEMER RR, SLOAN RA, HEBERT EP, FRANK K, TRYNIECKI JL Circuit weight training and its effects on excess postexercise oxygen consumption. Med Sci Sports Exerc 1999 Nov;31(11):1613-8

HUNTER GR, WEINSIER RL, BAMMAN MM, LARSON DE A role for high intensity exercise on energy balance and weight control. Int J Obes Relat Metab Disord 1998 Jun;22(6):489-93

KRAEMER WJ, VOLEK JS, CLARK KL, GORDON SE, PUHL SM, KOZIRIS LP, MCBRIDE JM, TRIPLETT-MCBRIDE NT, PUTUKIAN M, NEWTON RU, HAKKINEN K, BUSH JA, SEBASTIANELLI WJ. Influence of exercise training on physiological and performance changes with weight loss in men. :Med Sci Sports Exerc 1999 Sep;31(9):1320-9

MELBY, C., C. SCHOLL, G. EDWARDS, AND R. BULLOUGH. Effect of acute resistance exercise on postexercise energy expenditure and resting metabolic rate J. Appl. Physiol. 75:1847-1853, 1993

OSTERBERG, K.L., & MELBY, C.L. (2000). Effect of acute resistance exercise on postexercise oxygen consumption and resting metabolic rate in young women. International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism, 10, 71-81

WILMORE JH, PARR RB, GIRANDOLA RN, WARD P, VODAK PA, BARSTOW TJ, PIPES TV, ROMERO GT, LESLIE P. Physiological alterations consequent to circuit weight training. Med Sci Sports 1978 Summer;10(2):79-84

WILMORE JH, PARR RB, WARD P, VODAK PA, BARSTOW TJ, PIPES TV, GRIMDITCH G, LESLIE P. Energy cost of circuit weight training. Med Sci Sports 1978 Summer;10(2):75-8

WILMORE JH, STANFORTH PR, HUDSPETH LA, GAGNON J, DAW EW, LEON AS, RAO DC, SKINNER JS, BOUCHARD C Alterations in resting metabolic rate as a consequence of 20 wk of endurance training: the HERITAGE Family Study. Am J Clin Nutr 1998 Jul;68(1):66-71

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Investimento, cadê?

INVESTIMENTO! Esse mantra vem se perpetuando nos últimos anos, entretanto, apesar da sua repetida propagação, as atitudes para transformar a pregação em ação não ocorrem. Então temos que nos conformar com as taxas de crescimento que apresentamos ano após ano e acharmos um fato extremamente positivo. Não que não seja positivo, mas extremamente já é extremo.

Segue mais um texto relativo ao assunto, e uma análise interessante sobre o que foi chamado de MAROLINHA. Será que a onda foi tão pequena assim como foi propagada? Vale a leitura.


ESPAÇO ABERTO
'Marolinha' foi vagalhão
Roberto Macedo


O Estado de São Paulo, 21/10/2010

A crise econômica mundial, que aqui chegou com vigor em setembro de 2008, continuará a atrair a atenção de curiosos e estudiosos. Nos meios acadêmicos haverá muitos artigos, dissertações, teses e debates em torno de suas causas e seus desdobramentos. A quem busca temas específicos lembro a lição objetiva recebida de um orientador de tese: "Você terá um tema quando se deparar com pergunta ainda sem resposta ou, então, entender que uma já dada não se sustenta em sua lógica."

Há muito por elucidar quanto à crise e também respostas a questionar. Entre estas, a do presidente Lula aos efeitos da crise no Brasil, apontando que foram uma "marolinha".

Lula é conhecido defensor de teses fora dos bancos acadêmicos, mas deixa aberto um flanco com seu enfoque metodológico centrado em análises históricas. Nelas, pergunta a si mesmo sobre alguma coisa e se precipita a responder que "nunca antes neste país" (NANP) aconteceu isto ou aquilo. Esse método é vulnerável, porque oferece ao questionador a oportunidade de olhar nossa História de cinco séculos, com boa probabilidade de achar exemplos em contrário.

Lula perguntou-se sobre o efeito da crise e respondeu com essa tese da "marolinha", sem uso do NANP. Discuti-la também é interessante e outra razão é que foi lançada com a crise em andamento e, assim, na ocasião, sem maiores elementos para julgamento. Ademais, ele poderia alegar que fez uma avaliação relativamente ao efeito em outros países, ainda que sem precisar quais.

Mas o tempo foi passando e já há sólidas evidências a ponderar. Argumentarei que a "marolinha" foi um vagalhão, ainda que não um tsunami. A avaliação estende-se à tese em termos relativos, pois há países que se saíram muitíssimo melhor que o Brasil. Esses países precisam ser analisados, em particular na origem e na dinâmica de suas altas taxas de investimento relativamente ao produto interno bruto (PIB). Ou seja, daquela parcela da produção que amplia a capacidade produtiva de uma nação, como por meio de novas fábricas, expansão do setor serviços e obras de infraestrutura, particularmente as realizadas pelo setor público. Isso para que o Brasil aumente também a sua taxa, cresça mais e fique menos vulnerável a vagalhões, tsunamis e marolas de todo tamanho.

Quanto a este, recentemente surgiram os primeiros números medindo-o como proporção do PIB, ensejados pelo fim de 2009, já se sabendo assim, com razoável grau de precisão, como foi o desempenho desse ano que passou.

Vieram do economista Regis Bonelli, da Fundação Getúlio Vargas-RJ. Conforme este jornal de 11 do mês passado, ele calculou o custo da "marolinha" entre R$ 150 bilhões e R$ 210 bilhões em 2009, baseando suas estimativas no raciocínio de que sem a crise nosso PIB teria crescido entre 5% e 7% no ano, e com ela as estimativas desse crescimento são próximas de zero. A matéria não fala do valor do PIB, mas sabe-se que o PIB brasileiro tem um valor perto de R$ 3 trilhões. Esse número, ao lado dessas perdas de 5% a 7% de crescimento, leva às referidas estimativas do custo da crise em 2009.

Dados do IBGE confirmam esse valor aproximado do PIB, mostrando que ele foi de R$ 3,004881 trilhões em 2008; supondo crescimento zero em 2009, ele teria crescido, então, só por conta da inflação, que fechou o ano em 4,31%, segundo o IPCA. O índice de preços por trás do PIB é outro, mas deverá também mostrar taxa pequena. Supondo a mesma variação do IPCA, o efeito da "marolinha" em 2009 subiria para entre R$ 156 bilhões e R$ 220 bilhões a preços desse ano, não fazendo assim muita diferença nessa escala.

Um adendo que leva a uma diferença maior viria da lembrança de que a crise teve efeitos já em 2008, quando o PIB cresceu 5,1%. Supondo que poderia ter crescido mais 1%, isso geraria uma perda adicional de R$ 30 bilhões em 2008 e ampliaria os números de 2009 para entre R$ 158 bilhões e R$ 221 bilhões. Somando os dois anos, a média das estimativas alcançaria um valor perto de R$ 220 bilhões.

Em qualquer caso, a perda foi imensa, pois assumiu valores como esses, significando também mais de um ano perdido de crescimento do PIB e levando a perdas que famílias sofreram na forma de desemprego e queda de renda, que no setor produtivo fizeram cair a produção e no governo, a arrecadação.

Para se ter outra ideia, números nos jornais de ontem mostraram que as estimativas citadas para 2009 equivalem aproximadamente a toda a arrecadação do INSS no mesmo ano (R$ 184,6 bilhões), ou às despesas que deficitariamente nele realizou (R$ 228,2 bilhões), em particular com seus quase 20 milhões de aposentados.

Quanto à avaliação relativa, deve-se mirar não nos muitos países que se saíram pior que o Brasil, mas nos poucos que registraram taxas positivas e elevadas, a menos que nos conformemos com o padrão que hoje já contamina o País, o de se contentar com pouca coisa. Na China, segundo o último número da revista The Economist, as estimativas de crescimento em 2009 e 2010 são de 8,2% e 8,6%, respectivamente; na Índia, de 5,5% e 6,3%, destacando-se assim a manutenção de altas taxas de crescimento no ano mais marcado pela crise. O Brasil aparece com nada em 2009 e 4,8% em 2010.

Ora, a grande diferença na dinâmica econômica desses três países são suas taxas de investimento. China e Índia mostram taxas próximas de 40% e 30%, respectivamente, enquanto que o Brasil ficou anos mais perto de sofríveis 17%. Pouco antes da crise, no terceiro trimestre de 2008, chegou a 20,1%, mas o último dado, do terceiro de 2009, revela que caiu para 17,7%.

Enquanto isso, nosso presidente, contentando-se com muito pouco, sai pelo País com a ministra Dilma a alardear "sucessos" de seu MPAC, pois seu programa merece mesmo é o nome de Muito Pouco de Aceleração do Crescimento.

Roberto Macedo, economista (UFMG, USP e Harvard), professor associado à Faap, é vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Novas bolhas?

Excesso de liquidez nos mercados mundiais.

CELSO MING - As novas bolhas

Por toda a parte espocam advertências de que a economia mundial está produzindo novas e perigosas bolhas de ativos. Desta vez, não é mais o esticão nos preços dos imóveis e os empréstimos hipotecários que despertam preocupações. O suspeito da hora é a disparada das commodities, especialmente das matérias-primas metálicas. Mas há quem meta nesse mesmo saco o mercado de ações.

O gráfico mostra o comportamento de um dos principais índices medidores dos preços das commodities, o Commodities Research Bureau (CRB), que avançou 28,4% no período de 12 meses terminado em 15 de janeiro.

Como acontece em todos os acidentes da aviação, está errado atribuir essa alta a apenas um fator isolado. É sempre um conjunto deles. Tem a ver com o bom desempenho das economias emergentes, especialmente a da China, e, também, com a recuperação dos negócios nas economias dos países ricos. Sugerem, ainda, a volta da formação de estoques que haviam caído com a crise e o estancamento do crédito. Mas o principal fator por trás do avanço dos preços das commodities é a existência de uma enorme liquidez global. Essa liquidez é o resultado da atuação de tesouros nacionais e bancos centrais durante a crise, que, conjuntamente, devem ter injetado alguma coisa próxima dos US$ 10 trilhões, com o objetivo de impedir a prostração da economia mundial numa provável depressão.

Há plena consciência de que, mais cedo ou mais tarde, tesouros e bancos centrais terão de trazer essa dinheirama de volta para casa. Se é verdade que a origem da crise de 2008 foi o excesso de moeda emitida pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), deixar que esses US$ 10 trilhões extras girem pelos mercados e inflem novas bolhas de ativos implica deixar que se forme uma crise ainda pior mais à frente. Essa é a razão pela qual os presidentes dos grandes bancos centrais aproveitam toda a ocasião que têm para avisar que, daqui a pouco, irão começar a operação de enxugamento da liquidez também conhecida por "estratégia de saída".

O problema é que ninguém consegue enxergar como isso poderá acontecer sem colocar em risco a recuperação da atividade econômica ainda frágil.

O desemprego continua aumentando nos países ricos. A União Europeia enfrenta não apenas o crescimento do déficit orçamentário da maioria dos seus membros, mas, também, o vencimento do prazo de ajuda ao desemprego. A Alemanha tem 6 milhões de trabalhadores contemplados com subsídios do emprego de jornada reduzida (kurzarbeit) cujos contratos vencem, na sua maioria, em março e abril.

É essa síndrome que leva alguns economistas (entre eles, Nouriel Roubini, que previu a crise) a advertir que a atual recuperação despencará numa forte recessão a ser revertida mais adiante. É o que, segundo eles, desenhará nos gráficos a linha em formato de W, que provocaria um montão de mortos e feridos antes que a última perna do W se pusesse novamente de pé.

Se o quadro de recaída de fato se confirmar, ficará também inviabilizado qualquer programa de enxugamento de liquidez pelos bancos centrais. E aí será preciso ver até que ponto os próprios bancos centrais conseguirão evitar a formação das tais novas bolhas de ativos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Qual melhor horário para malhar?

Pronto para malhar? Antes, olhe o relógio

São Paulo, segunda-feira, 18 de janeiro de 2010 - Folha/NYT

É possível que alguns atletas sejam mais ou menos eficientes, dependendo do horário? A triatleta Tara Martin não consegue fazer sua frequência cardíaca subir pela manhã. O nadador Richard Friedman disse que sua frequência cardíaca sempre é mais baixa no início do dia.
Após pesquisar meus próprios padrões de exercícios -frequência cardíaca alta à noite e baixa de manhã em sessões de exercícios idênticas-, perguntei a William Haskell, pesquisador de exercício físico e professor emérito de medicina na Universidade Stanford, se eu tinha "descoberto" um fato já conhecido sobre frequências cardíacas. Mas ele não soube responder.
William Roberts, ex-diretor da Faculdade Americana de Medicina Esportiva e médico de família na Universidade de Minnesota, disse que é "uma pergunta difícil". "Não tenho uma boa explicação fisiológica do fenômeno que você descreve", acrescentou.
Um pequeno grupo de pesquisadores tem estudado a performance em exercícios físicos segundo o horário do dia, tendo chegado a fazer estudos de frequências cardíacas. E o resultado é que não apenas o desempenho é melhor no final da tarde e início da noite, como, contrariando o que os fisiologistas do exercício poderiam prever, as frequências cardíacas também são mais altas para o mesmo esforço feito nesse horário.
Estudo recente conduzido por Thomas Reilly e seus colegas na Universidade Liverpool John Moores (Reino Unido) constatou que as frequências cardíacas máximas e submáximas são mais baixas pela manhã, mas que a percepção que as pessoas têm da intensidade do exercício é a mesma pela manhã e mais tarde no dia.
Em artigo, Reilly e seu colega Jim Waterhouse também notaram que os melhores desempenhos de atletas, incluindo recordes mundiais, costumam acontecer no final da tarde ou início da noite.
Greg Atkinson, também da Universidade Liverpool, disse que alguns pesquisadores, observando que a frequência cardíaca quando se malha é mais baixa de manhã, calcularam que as pessoas devem estar mais eficientes de manhã. Isso significaria que é mais fácil exercitar-se no início do dia. Para mim, é claro, pareceu que é mais difícil, mas é possível que eu estivesse me iludindo. Na realidade, não, disse Atkinson.
É realmente mais difícil exercitar-se de manhã. "A maioria dos componentes do desempenho esportivo [força, potência, velocidade] é pior no início da manhã", ele disse por e-mail. "De modo geral, os índices de esforço percebido durante exercício revelam ser mais altos no início da manhã."
"Se você se exercita mais tarde durante o dia, seus músculos estão mais flexíveis e fortes, e seu coração e pulmões estão mais eficientes", disse Michael H. Smolensky, especialista em cronobiologia, o estudo do relógio do corpo.
"Uma frequência cardíaca de 140 de manhã é indicativa do mesmo nível de esforço em uma sessão de exercícios quanto uma sessão feita à tarde?", perguntou Smolensky, professor visitante do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas em Houston. "Eu diria que não", acrescentou.
"Os fisiologistas do exercício dizem que deveríamos conseguir um desempenho de mesmo nível com frequência cardíaca de 140 pela manhã quanto conseguimos à tarde ou no início da noite. Mas os cronobiólogos dizem que nossa capacidade de gerar e tolerar uma frequência cardíaca mais alta é melhor mais tarde no dia." "À tarde e à noite, nos encontramos em um estado biológico diferente", disse Smolensky.
Ele acrescentou que isso se aplica a pessoas que fazem exercícios regularmente, malhando intensivamente três ou mais vezes por semana. Pessoas que não fazem exercícios regularmente, disse Smolensky, exigem mais de seus corações quando se exercitam pela manhã, de modo que suas frequências cardíacas são mais altas nesse horário.
Smolensky disse ainda que as pessoas que apresentam risco de ataque cardíaco deveriam planejar suas sessões de exercício para a tarde ou o início da noite. "Meu conselho é treinar no momento em que sua eficiência biológica está mais alta, o que, para a maioria das pessoas, é o final da tarde ou início da noite", disse ele. "Outros dizem que, se você malhar quando sua eficiência biológica está mais baixa, a malhação será mais intensiva."